domingo, 28 de junho de 2009

UM JORNALISTA SEM MEDO E QUE NÃO SERVE INTERESSES OPORTUNISTAS



Emídio Rangel: "Media são oposição a Sócrates"
Fundador da TSF e da SIC. Professor universitário

Amado por muitos, odiado talvez por mais, que a liberdade tem preço - e é alto. Emídio Rangel, 62 anos, diz ser uma espécie de homem maldito. Como os poetas: desobedece para vingar a moral.
Estourou mais uma polémica nas mãos de José Sócrates, com a PT a querer comprar 30% do grupo Prisa. O Governo tentou nacionalizar a TVI?
Claro que não. Estão a pretender misturar uma hipótese antiga com uma discussão actual sobre um negócio que não existiu. Querem intoxicar a opinião pública.
Refere-se à manchete do Expresso desta semana, que diz que o Governo conhecia o negócio desde Janeiro?
Exactamente. Isso é manipulação de informação. Quando se pretende ser sensacionalista e jogar a favor de outros objectivos, não custa nada fazer essa manchete.
Este negócio faz sentido do ponto de vista estritamente económico?
É indiscutível que para a PT tem toda a importância. Mas uma participação minoritária não daria direito a substituir o director-geral nem a alterar a linha editorial.
Mas depois de tudo o que Sócrates disse sobre a TVI, não terá sido, como tem sido dito, ingenuidade política não prever o impacto na opinião pública?
Sócrates não tem claramente a comunicação social do seu lado. É vergastado todos os dias. E estou de acordo com as críticas que ele fez ao Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes. Qualquer jornalista com dois centímetros de massa cinzenta vê como aquilo é um atropelo ao jornalismo.
Isso faz de José Eduardo Moniz o verdadeiro líder da Oposição?
Não vou comparar a acção política dos líderes dos partidos com a acção do director-geral de uma estação ou a do director do Expresso. Mas há, de facto, oposição dos media em geral a Sócrates.
Em que momento é que ele os perdeu?
Quando hostilizou parte da Comunicação Social. Não o devia ter feito. Mas no caso da TVI, percebo aquela explosão: quem não se sente não é filho de boa gente.
Pela primeira vez, uma sondagem (da Marktest para o Semanário Económico) deu vantagem ao PSD (35,8% contra 34,5%), cuja líder, escreveu, "não gosta de comícios nem de debates nem de política". Mas os portugueses começam a gostar dela, ou não?
Mas ela ainda não disse nada. Sabemos que tem ideias liberais, que quer privatizar o ensino e a saúde, o que que seria trágico. E que fala do TGV e do aeroporto, como se isso não fosse importantíssimo para desenvolver um país periférico. Mas ela - que já esteve no Governo, não fez uma única reforma e deixou um défice elevadíssimo - é agora exaltada na comunicação social como se tivesse qualidades extraordinárias. Enfim.
É naturalmente defensor de José Sócrates, tanto mais que são amigos. Por que razão decidiu deixar de lhe falar?
Não foi bem isso; não temos relações desde que ele é primeiro-ministro. Quem tem a posição que eu tenho, é muito livre. Tenho sempre a minha posição - quando defendo Sócrates e quando ataco o governo. Não tenho telhados de vidro, francamente!
É por causa dessa sua liberdade que foi banido da SIC e saneado na RTP?
Esta liberdade tem mesmo um preço - e é elevado. Sou uma espécie de homem maldito.
Há uma série de frases a que estará sempre associado. Uma delas...
[Risos] ...É a do presidente...
Tal e qual: "É tão fácil vender um presidente como um sabonete"...
A frase foi desvirtuada, mas estou conformado com a ideia de que vou viver com isso até à morte.
Substituo o verbo: trocaria, de facto, o actual presidente da República?
Não. Teve sempre a minha atenção e o meu total respeito.
Isso vale também para as mais recentes intervenções dele?
Confesso que não. Não faz sentido que ele seja um protagonista político do dia-a-dia.
Ter-se-á Cavaco Silva entusiasmado com a ideia de Manuela Ferreira Leite poder ser primeira-ministra?
Ela é um produto de Cavaco, foi ele que implorou para que ela assumisse o PSD. Não sei se é por isso que está tão interessado em intervir em matérias político-partidárias quando devia ser neutro.

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