Ao princípio era um negócio. Mas num instante transformou-se em facto político.
As conversações entre a Portugal Telecom (PT) e o grupo Prisa foram inviabilizadas pelo governo, que usou a influência da golden share do Estado para vetar a entrada da operadora na TVI. Na base da decisão estiveram as suspeitas sobre tentativas de condicionamento editorial no canal, levantadas pela oposição. Com particular ênfase na líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, que chegou a antecipar o possível "escândalo" do afastamento do director de informação do canal, José Eduardo Moniz.
Uma posição que o presidente da PT confessa agora tê-lo deixado "muito surpreendido"."Fiquei de facto muito surpreendido com as duas intervenções da senhora presidente do PSD", disse ontem ao i Henrique Granadeiro. "Primeiro com a sua preocupação da defesa dos accionistas da PT, pondo em causa o interesse de um negócio que não se fez e cujos termos não conhecia. Depois pelo receio de a PT poder vir a intervir na autonomia editorial de um grupo de comunicação social", pormenorizou o chairman da PT.O zelo manifestado por Ferreira Leite quanto à possível instrumentalização política da PT, leva mesmo Granadeiro a ironizar. "Já parecem esquecidas as tentativas de intervenção do governo do PSD na Lusomundo Media, que levaram à minha demissão", recorda, recuando à sua saída, em 2004, da presidência executiva da subholding do grupo PT que agrupava os meios de comunicação então detidos pela operadora - TSF, "DN", "JN", "24horas" e "Tal&Qual".
Um processo que levou o então secretário-geral do PS, José Sócrates, a defender a criação de uma lei que impedisse a instrumentalização dos meios detidos pela PT. "O nosso objectivo é que nenhum governo, através da PT, possa interferir na comunicação social. Com esta iniciativa, queremos defender a própria PT", disse Sócrates na altura.
As polémicas sobre a instrumentalização política da PT teve particular enfoque nas sucessivas mudanças na direcção do "DN". E as críticas só terminaram com a decisão de alienar todos os activos de media da operadora, que acabaram nas mãos da Controlinveste de Joaquim Oliveira, por 300 milhões de euros. Quando o negócio foi fechado, em 2005, já Granadeiro tinha deixado a presidência da Lusomundo Media, continuando como administrador da PT Multimédia.A rede fixa Relativamente à preocupação de Ferreira Leite quanto aos prejuízos que o negócio entre a PT e a TVI poderia trazer aos accionistas da operadora, Henrique Granadeiro sublinha que "ainda está na memória de toda a gente a venda pelo Estado à PT da rede fixa como forma de conter o défice público nos limites impostos por Bruxelas, sendo Manuela Ferreira Leite ministra das Finanças".
A venda desta rede à operadora não só foi muito contestada pela Comissão Europeia, como levantou uma polémica que ainda hoje motiva discussões no sector das telecomunicações. Tudo se passou em 2002, em pleno vale-tudo contra o défice. A PT teve de comprar a rede fixa ao Estado por 365 milhões de euros, numa operação que, em conjunto com a concessão da CREL à Brisa, permitiu ao Estado e a Ferreira Leite respeitar os 3% de défice.
No ano seguinte a opção da ministra para respeitar os 3% de défice foi a venda de 11 mil milhões de euros de dívidas fiscais por 1,75 mil milhões.Poucos gostaram da decisão da ministra das Finanças de vender a rede à PT.
A Comissão Europeia intentou uma acção contra o Estado pela adjudicação directa da rede fixa, por considerar que tal medida violou a directiva europeia de concorrência. Também a Sonaecom fez deste tema cavalo de batalha, tendo em 2005 avaliado a mesma rede em 2,3 mil milhões - um sexto do valor de venda.
Em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a PT explicou na altura deste negócio que "acordou efectuar o pagamento antecipado das rendas futuras, nos termos do actual contrato de concessão, em troca da propriedade da rede básica de telecomunicações".Depois de ter rotulado de "tempestade de Verão" a actual polémica em torno da possível entrada da PT na TVI, Granadeiro faz agora questão de sublinhar a vertente estratégica de todos os negócios da PT.
"Para tranquilidade de toda a gente, convém reparar que as acções da PT valorizaram hoje [ontem] 4,06% em Lisboa e 3,66% em Nova Iorque continuando a ser de longe a empresa de telecomunicações europeia que mais se valorizou este ano", refere.
O actual ministro com a pasta da comunicação social, Augusto Santos Silva, recusou comentar as declarações de Granadeiro.
Até ao fecho desta edição não foi possível contactar Ferreira Leite
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