
Diversos analistas e comentadores sublinham esta manhã que chegou a hora de Cavaco Silva quebrar o silêncio e falar abertamente das razões que o levaram a afastar Fernando Lima e, sobretudo, do que lhe ia na mente quando, ainda antes de demitir o seu mais antigo assessor de Imprensa, disse ao País que, depois das eleições, ia “tentar obter mais informações sobre questões de segurança”. António Costa Pina, politólogo e professor no Instituto de Ciências Sociais, sublinha que o próximo governo será de “combate, sem as concessões que a segurança de uma maioria absoluta permitiram” e que por isso a “governabilidade vai ser tema das elites” o que exige que “o ‘problema de Belém’ terá que ser resolvido rapidamente”. Também no “Público”, Vítor Malheiros sublinha que o dia de ontem era esperado não só para saber quem vai ser o próximo governo, “mas porque foi o dia para o qual o Presidente da República marcou o fim do tabu sobre as escutas”. “Agora, o que queremos ouvir é Cavaco Silva dizer (no momento em que convidar Sócrates para formar governo?) que o primeiro-ministro o andou a escutar ou que foi tudo uma brincadeira de Fernando Lima - e, em ambos os casos, saber por que só fala agora e por que fez o que fez”. “Os próximos dias vão continuar a ser trágico-cómicos”, antecipa o jornalista. No “i”, Paulo Pinto Mascarenhas dá uma volta pela nova “selva política” e põe Cavaco na pele de Tarzan “agarrado a uma frágil liana que é a sua própria credibilidade, posta em causa depois do episódio das escutas”. “O Presidente da República tem muito que explicar – e não é só ao País, mas também ao seu partido de sempre, o PSD”. António José Teixeira, director da SIC Notícias, escreve, a propósito da maior fragmentação no novo Parlamento, que Cavaco Silva “deu também o seu contributo para estes resultados”. “Enfraqueceu-se. Perdeu respeitabilidade. Tem nuvens negras no horizonte da reeleição e a responsabilidade da governabilidade”, sublinha, para concluir: “Já não bastava a crise da economia… Nos tempos mais próximos vamos viver em crise política permanente”. Esta manhã, no site da Presidência da República, a mais recente notícia é datada de ontem, dando conta de que Cavaco Silva exerceu o direito de voto nas Eleições para a Assembleia da República, votando na Escola Bartolomeu de Gusmão, em Lisboa. Na recta final da campanha eleitoral, em pleno “fogo cruzado” sobre as alegadas escutas de São Bento a Belém, Cavaco Silva afirmou que “depois das eleições não deixarei de tentar obter mais informações sobre questões de segurança". E insistiu: "O Presidente da República deve preocupar-se com questões de segurança". "Deixemos passar as eleições e, depois, eu tentarei, naturalmente de uma forma discreta, como costumo fazer, obter informações sobre questões de segurança". Três dias depois, a 21 de Setembro, a Presidência anunciava que tinha afastado Fernando Lima do cargo de assessor de Imprensa, depois de o “DN” ter divulgado uma troca de emails entre o assessor e um jornalista do “Público”, em que, aparentemente, este lhe fornecia o guião para sustentar a notícia de que a Presidência suspeitava estar a ser vigiada pelo Governo. No rescaldo dessa decisão, Pacheco Pereira apelou a Cavaco para esclarecer tudo antes das eleições. “O Presidente da República tem certamente coisas graves para dizer ao País”, escrevia o social-democrata, insistindo que Cavaco Silva tinha rompido o silêncio a que prometera remeter-se durante a campanha eleitoral quando decidiu “falar através da demissão do seu assessor de imprensa e, sendo assim, interferiu de facto na campanha eleitoral”. “Mais valia agora que dissesse tudo para não acordarmos no dia 28 sabendo coisas que mais valia que fossem conhecidas já”, acrescentava no seu blogue “Abrupto”.
1 comentário:
Estou curioso para ver como é que Cavaco vai sair desta. Será que só fala depois das Autárquicas?
Se calhar, o "discurso" já escrito previa a vitória do PSD... Tem que o rever. É uma chatice.
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