segunda-feira, 12 de outubro de 2009

EDITORAL DO DN

editorial
Uma vitória de Pirro
As eleições autárquicas de ontem deram ao Partido Socialista o melhor resultado de sempre em eleições locais (o anterior recorde socialista estava fixado em 127 câmaras e este domingo passou para 131). No entanto, e em termos factuais e objectivos, o PSD continua a ser o maior partido português nas autarquias. E desse ponto de vista é lícito que se proclame vencedor destas eleições.
Importa, no entanto, fazer algumas leituras e retirar conclusões. O PS, apesar da dinâmica com que vinha das eleições legislativas de há duas semanas, obtém vitórias, algumas delas bastante significativas, em oito capitais de distrito. A maioria absoluta em Lisboa e o "roubo" de Leiria ao PSD são alguns desses exemplos.
Por outro lado, o PSD lidera em nove capitais de distrito, mas as três vitórias mais importantes - Porto, Coimbra e Faro - foram conseguidas à custa de coligações com outras tantas forças políticas - CDS/PP, PPM e MPT.
A dimensão da vitória em número de câmaras atribuída ao PSD não tem, contudo, correspondência com o número de votos em termos absolutos nem com o número de mandatos alcançados. À luz destes dois critérios, o PS pode proclamar-se vencedor da noite eleitoral.
O PSD, apesar de ser o partido com maior número de presidências de câmara, sai destas eleições mais fragilizado do que entrou. Perdeu 20 autarquias em relação a 2005, sendo que quem foi a votos nalgumas delas foram apostas pessoais de Manuela Ferreira Leite. São os casos de Isabel Damasceno, em Leiria, ou Pedro Santana Lopes. em Lisboa.
O Bloco de Esquerda e o CDS foram outros derrotados nestas autárquicas. Cada um destes partidos manteve a única câmara de que dispunha, mas mostrou-se incapaz de rentabilizar os resultados obtidos nas eleições legislativas de 27 de Setembro. Quando se esperava que confirmassem a tendência de crescimento, vieram ao de cima as fragilidades de implantação no terreno que bloquistas e democratas-cristãos revelam desde há vários anos.
Estes factos permitiram ao PCP fazer o discurso habitual. "Estas eleições demonstraram um reforço significativo da CDU." É um facto que os comunistas resistiram, mais do que os outros, à erosão eleitoral. Mas perderam Beja, um dos seus redutos históricos no Alentejo, ou a emblemática Marinha Grande, para o PS. Perderam votos e mandatos, continuando a ser a terceira força política no poder local.
Ainda a noite não tinha terminado, e já se começavam a afiar as facas no PSD. Em Vila Real, Pedro Passos Coelho afirmou que "o PSD tem de fazer uma reflexão profunda". Já Luís Filipe Menezes deixou clara a sua posição sobre a liderança do partido: "A mudança tem de ser feita já." Manuela Ferreira Leite está assim mais cercada do que nunca.
Fechado o ciclo eleitoral - europeias, legislativas e autárquicas -, a avaliação do desempenho da presidente do PSD é confrangedor. O partido ganhou as eleições de 6 de Junho, sem que Ferreira Leite fosse candidata. Pode reclamar vitória nas autárquicas, mas também aqui a líder não era candidata. Da única vez que foi a votos, nas legislativas, o PSD perdeu. A reflexão sobre o futuro é assim urgente. O País precisa agora de que o maior partido da oposição se fortaleça para que possa ser alternativa ao Governo minoritário do PS.

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