Editorial
Lisboa: uma vitória difícil de engolir
por Francisco Camacho, Publicado em 09 de Outubro de 2009
Nas legislativas todos saíram vencedores. Nas autárquicas, em Lisboa, não há vitória sem senão tanto para Sócrates como para Ferreira Leite
Parece que a honradez da derrota assumida deixou de ser estimada - e, claro, alguma responsabilidade a plateia há-de ter nisto. Acabou o tempo dos cavalheiros, o tempo em que quem ganhava e quem perdia era claro para todos e os discursos da noite eleitoral sempre serviam para desmontar as tendas e dizer: basta de circo.
O medo do ridículo, que antes forçava os líderes partidários a terem o mínimo de juízo, contenção e lucidez no momento de reagir aos resultados, poupando-nos a contorcionismos de retórica demasiado descarados, foi ultrapassado de vez. Perdeu-se a vergonha. Agora, mais que nunca, nas noites eleitorais já não há vencidos. Só vencedores.
Aprendemos essa lição de alta política nos discursos de 27 de Setembro. Se as últimas europeias foram marcadas pelo descrédito das sondagens, as legislativas destacaram-se por este absurdo: a ausência de derrotados. Como o povo não se indignou com a profusão de discursos triunfantes, o mais provável é que a fórmula continue a ser utilizada por todos os líderes em noites de eleições daqui em diante. Assim, quaisquer que sejam as percentagens nacionais ou o número de câmaras conquistadas pelos partidos no domingo, já ganharam todos. Para os políticos, é um expediente muito tranquilizador: nunca mais se sentirão obrigados a assumir um desaire perante o país. Para o povo, é reconfortante: demonstra que tinha razão para desconfiar dos políticos. Este novo discurso transversal, em que todos ganham e ninguém perde, pode ser facilmente rebatido numa leitura antecipada dos resultados do PS e do PSD nas autárquicas em Lisboa. Isto é: o líder do partido que vencer no domingo leva também uma derrota pessoal para casa. Veja-se a situação delicada de Manuela Ferreira Leite. O facto de ter aceitado Pedro Santana Lopes como cabeça-de-lista em Lisboa nunca chegou para apagar o historial de desavenças entre os dois. Não fez esquecer o que Ferreira Leite disse à "Sábado", em Maio do ano passado, sobre os seus dilemas como eleitora nas legislativas de 2005.
Uma vitória em Lisboa do antigo primeiro-ministro, que na altura considerou essas declarações uma violação dos estatutos do partido, teria um sabor amargo para Ferreira Leite. Pior sabor só mesmo a derrota em Lisboa. Poderia ser a estocada final numa liderança muito fragilizada. Resumindo: Ferreira Leite não terá razões, em circunstância alguma, para grandes festejos no domingo.
Se António Costa ganhar, José Sócrates irá obviamente cantar vitória e aparecer em público abraçado ao presidente da câmara. Mas o triunfo não será do primeiro-ministro e ele sabe-o melhor que ninguém. O PS que Costa representa é um partido mais à esquerda que o de Sócrates. É um partido que se entende com Manuel Alegre, que tem o apoio de Helena Roseta, Sá Fernandes e até Carvalho da Silva, o líder da CGTP. Uma vitória clara de Costa em Lisboa daria um novo ânimo a uma parte do PS que não gosta de Sócrates. Além de um peso acrescido ao homem que mais sombra lhe faz no partido.

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