Presidente Alegre?
Por Vasco Pulido Valente
Consta que os portugueses estão fartíssimos de eleições - de "europeias", de legislativas, de autárquicas. Foi de facto uma dose concentrada de populismo, demagogia e retórica de televisão. Mas não me parece que os portugueses, da direita ou da esquerda, não estejam interessados nas presidenciais. Pelo contrário. O que até agora ficou por resolver, talvez se resolva para o ano. Não seria com certeza irrelevante que o próximo Presidente - condenado a dissolver esta Assembleia - fosse Cavaco (se ele, por acaso, se recandidatar) ou Manuel Alegre - ou mesmo Guterres, Jaime Gama ou Marcelo. Por aqui e por ali começa uma agitação surda, que os resultados de 27 de Setembro, o caso da "espionagem" e o absurdo comportamento de Cavaco no episódio inteiro manifestamente animaram.
Se Manuel Alegre conseguisse ganhar, unindo o PS, o PC e Bloco, é em princípio possível que, a seguir, essa maioria (bem diferente da de Mário Soares) se reproduzisse no Parlamento. O país teria, então, uma espécie de "frente popular", decidida ao pior. As dificuldades, como é óbvio, são muitas. Em primeiro lugar, Alegre nunca irá a parte alguma, se provocar uma cisão no PS: radicais, para um lado, moderados, para outro. Ele próprio reconhece que "uma parte" do partido (os "soaristas", franco-atiradores como João Cravinho ou Sérgio Sousa Pinto e um grande grupo de gente que sempre se inclinou para a "respeitabilidade" e o centro) "tudo" fará para que o PS não o apoie; e que, semana a semana, inventará um novo candidato para baralhar as coisas (como, de resto, já hoje tenta com a promoção de Guterres, Sampaio e Jaime Gama).
Só que a crise (mais de 600.000 desempregados dentro de pouco tempo), a previsível paralisação do governo Sócrates na Assembleia da República e a impotência do Presidente para garantir uma vida política "regular" vão empurrar o país para uma saída drástica e, provavelmente, ajudarão Alegre. Ainda por cima, a debilidade do PSD, em que, como de costume, ninguém se entende, e que perdeu qualquer espécie de identidade ou propósito; e o desprestígio de Cavaco (que tenderá a aumentar à medida que aumentarem as dificuldades do português comum), não anunciam à direita um candidato forte. A excitação de Alegre e a correlativa angústia de Soares vêm muito simplesmente de que eles, por uma vez, perceberam que o dr. Cavaco é derrotável. E é.
1 comentário:
E é, sem dúvida, se se recandidatar, do que duvido.
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