quinta-feira, 1 de outubro de 2009

UMA OPINIÃO NO "i"

Quatro dias depois das legislativas, o ambiente é de funeral. Não houve tempo sequer para o país ganhar ânimo. Estas eleições foram inúteis

Afinal, Cavaco Silva fez um enorme favor a Manuela Ferreira Leite. Tivesse o Presidente da República falado antes das eleições - como fez anteontem - e o rombo do PSD nas urnas talvez ainda fosse mais profundo. Como em todos os discursos presidenciais desde o tempo de Jorge Sampaio, a ocasião, politicamente grave, deu novo alento aos interpretadores profissionais das palavras proferidas com solenidade no Palácio de Belém. O literal é sempre desvalorizado. O que é subentendido e imaginado, mesmo através de um absurdo esforço criativo, ganha vida e relevância. O resultado prático é frágil - a realidade é teimosa, não cede facilmente -, mas o ruído consegue o efeito político pretendido: aumenta a confusão no país e, bem ao estilo recente da Presidência da República, lança mais interrogações e dúvidas assassinas para o ar. Afinal, houve ou não escutas e vigilância desencadeadas pelo partido do governo?Assim está o país: perplexo. A teimosia de Cavaco em fechar de vez o assunto mantém os portugueses em bicos de pés. O paradoxo é evidente: o clima está tão dividido que há até quem deseje que as suspeitas, apesar de ácidas para a saúde democrática do país, se venham mesmo a confirmar. Estranho papel para um Presidente, o árbitro da nação, ser ele a fonte de tão descabido desejo que, a confirmar-se, feriria mortalmente o primeiro-ministro reeleito. Com eleições legislativas realizadas há apenas quatro dias, o clima tornou-se ainda mais conspirativo. O normal, apesar de o governo só ter ganho um novo - e instável - mandato, seria que se abrisse um novo ciclo. Não se esperavam saltos de contentamento, nem que o primeiro-ministro e o Presidente da República fossem vistos numa longa caminhada bucólica entre os jacarandás do Palácio de Belém. Já ninguém acredita nestes luminosos contos de fadas. Mas também não era preciso este grau de brutalidade e de cinismo. Os dois mais altos responsáveis políticos do país, sobre quem repousa uma parte vital do nosso destino colectivo imediato, estão absorvidos numa guerra pessoal que os distrai do essencial. E o essencial é saber como vai ser governado Portugal nos próximos anos. Como vai ser gerido um país com um executivo minoritário, uma Assembleia da República dividida, uma esquerda - bem de esquerda - com 20% dos assentos parlamentares, um PSD ligado ao oxigénio, o líder do CDS meio afogado no caso da compra dos submarinos e a economia em estado de choque e pavor? Em quem podemos confiar? De quem podemos esperar decisões sérias e alguma liderança em tempos conturbados? Quando se elege um governo, renovam-se as expectativas. Pode não ser totalmente, mas pelo menos em parte. O que Cavaco Silva fez não será esquecido: ele cortou pela raiz qualquer ambição. Neste sentido, as eleições foram inúteis. Cavaco vai ter de falar outra vez. Ou calar-se para sempre. Mas os estragos estão feitos. Muitos são irreversíveis.

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