quinta-feira, 30 de maio de 2013



Fala de corrupção generalizada na política em Portugal. Começo pela pergunta que faz no fim do seu livro: “Haverá na vida pública nacional corajosos que queiram calar o medo e trilhar” o caminho do combate à corrupção?
Há muita gente na vida pública que odeia a corrupção, porque conhece os seus mecanismos e os malefícios que ela provoca. É necessário que alguns percam o medo e passem a deixar de ter vergonha de a combater. Maior vergonha é viver neste pântano, no meio de tanta corrupção.
Não se corre o risco de aparecerem demagogos em razão dessa acusação generalizada aos políticos?
Este é o maior dos perigos, o surgimento dum populista demagogo que leve atrás de si multidões para o abismo. Hugo Chavez ganhou o poder na Venezuela, hoje o país mais corrupto da América Latina, prometendo combater a corrupção. Hitler chegou ao poder apoiado por uma multidão de seis milhões de desempregados. O caldo em que vivemos é propício a novas ditaduras. A culpa é dos políticos que aviltam a democracia e desperdiçam a liberdade.
Praticamente ninguém se salva no livro, de Cavaco Silva a Passos Coelho, passando por Paulo Portas, António Guterres e José Sócrates. Mas qual é para si o político mais corrupto em Portugal?
Esse é um campeonato em que são muitos os candidatos. No livro estão lá todos, ou quase. Mas, nos dias de hoje, o maior responsável é claramente o Presidente da República, pois permite com o seu silêncio e inacção que a situação continue a agravar-se. Sendo o Presidente o responsável pelo regular funcionamento das instituições ignora o que há de mais irregular nas instituições, que é a corrupção.   
Mas há provas concretas de corrupção em relação a algum político no activo?
Os tribunais alemães provaram que houve corrupção no processo de aquisição de submarinos. A corrupção está pois provada neste processo. Por isso, no seio do grupo constituído por António Guterres e o seu ministro da defesa Rui Pena, por um lado, e Durão Barroso e o seu ministro da Defesa, Paulo Portas – nestes quatro, um pelo menos é corrupto ou cúmplice. Os restantes serão vítimas, já que sobre eles impende a suspeita fundada de corrupção.
A dívida dos privados é hoje um dos problemas portugueses. Porque é que diz ser mentira que os portugueses gastaram acima das suas possibilidades?
A dívida privada, no início de 2009, quando a crise surge, era constituída maioritariamente por dívida imobiliária. E esta resultou essencialmente de especulação imobiliária. Construíram-se casas que foram vendidas acima do seu real valor, valorizaram-se artificialmente terrenos para mais tarde serem expropriados por valores milionários e até houve casos em que os bancos financiaram projectos que nunca se vieram a construir. Os promotores imobiliários capturaram o poder local e criaram uma enorme bolha imobiliária que todos estamos a pagar. Quanto aos gastos em bens de consumo, telemóveis, viagens ou automóveis, representam apenas quinze por cento do valor do endividamento privado.
Escreve que a situação financeira é resultado da má gestão dos dinheiros públicos ou da corrupção: as gorduras do Estado não existem?
É verdade que há gorduras e má gestão. Mas a parte maior da dívida pública deve-se aos danos provocados nos sucessivos orçamentos de estado pela corrupção. A corrupção na Expo 98, no Euro 2004, na compra dos submarinos, no BPP e no BPN, entre outros, custaram ao povo português dezenas de milhar de milhões de euros. E isto já para não falar na sangria permanente com as parcerias público-privadas rodoviárias ou com a ponte Vasco da Gama. Nestes negócios, o Estado português derrete milhares de milhões de euros em cada ano.
 
ENTREVISTA DE PAULO MORAIS.

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