sábado, 27 de julho de 2013

Portugal


Mário Soares em entrevista ao i. “Estou desiludido com Seguro”
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Mário Soares afirma que travou a saída de vários militantes do PS que contestavam um possível acordo entre socialistas e governo
Pela primeira vez desde que António José Seguro foi eleito secretário-geral do PS, o fundador Mário Soares manifesta a sua desilusão com o novo chefe dos socialistas, cuja liderança tinha apoiado desde a primeira hora. As negociações com o governo durante a semana passada afastaram Soares de Seguro, que ficou desiludido por o PS se ter sentado à mesa das negociações e com a maneira como Seguro se explicou ao país em entrevista à SIC-Notícias depois de ter recusado o acordo. Nesta entrevista ao i com o novo governo já conhecido, Soares manifesta-se pela primeira vez sobre Rui Machete, seu vice no governo do bloco central, e faz críticas duríssimas ao Presidente da República.
Dr. Mário Soares, já foi primeiro-ministro de um governo em que Rui Machete, o novo Ministro dos Negócios Estrangeiros, foi vice-primeiro-ministro. O que pensa de Rui Machete? Pensa que Machete pode de alguma forma melhora a qualidade do governo ou as suas ligações ao BPN são uma marca de que não se libertará?
Realmente Rui Machete foi ministro, num governo de coligação entre Mota Pinto (PSD) e eu próprio, e em que não houve nenhum problema. Mota Pinto e eu tornámo-nos muito amigos e nesses dois anos nunca tivemos uma querela. Ainda hoje para mim é um amigo saudoso, como a viúva e os filhos sabem bem. Nesse tempo de trabalho conjunto, Rui Machete, então social-democrata a sério, nunca me mereceu qualquer reparo. Depois a vida separou-nos e realmente pouco nos vimos e falámos. Sei que foi presidente da FLAD, onde teve conflitos com vários embaixadores americanos que acabaram por demiti-lo. O que não será bom para um ministro dos Negócios Estrangeiros... Também, segundo escreve o Expresso online, teve ligações com o BPN, banco muito suspeito. A ser verdade, não é bom para um ministro em tempo de crise tão complexa como a actual. É tudo o que lhe posso dizer.
Defende há muito tempo a demissão do governo. Mas este governo não é melhor que o anterior? Muitos dos ministros que o compõem são mais críticos da austeridade do que era Vítor Gaspar, a começar por Paulo Portas. Isso não poderá fazer a diferença perante a troika? Ou pensa que Portas está a receber um presente envenenado?
Do meu ponto de vista é um governo moribundo que continua com a mesma política de austeridade. A promoção do vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, que Cavaco Silva teve de engolir depois de ter dito publicamente o contrário, como o país todo sabe, não augura nada de bom. Nem julgo que seja a pessoa indicada para discutir com a troika. Realmente acho que o lugar de vice-primeiro-ministro para Paulo Portas é um presente envenenado, como ele perceberá, passada a euforia e a vaidade do momento.
O senhor doutor fez um discurso duro contra a hipótese de o PS negociar com o governo um acordo. Seguro recusou, mas disse aos portugueses que acreditou até ao fim que isso seria possível. Que consequências teria a assinatura de um acordo com o governo para o PS?
Honro-me de, com Manuel Alegre, termos evitado que alguns membros significativos do PS se demitissem nos dias anteriores a Seguro dizer que não havia acordo. Por mim, nunca acreditei que aquelas conversações fossem feitas sem que houvesse uma cisão grave no PS. Seguro mandou-me um recado por Almeida Santos a dizer que estava muito magoado comigo. Ora eu também estou com ele, principalmente depois da entrevista que deu à inteligente entrevistadora da SIC, Ana Lourenço, em que só falou uma vez e de passagem do PS, como se fosse o seu dono. Ora não é. É apenas o seu líder, eleito por esmagadora maioria, pelo congresso, a que assisti, é verdade. Mas isso não lhe dá o direito a falar sempre na primeira pessoa. Pelo contrário.
Seguro não excluiu totalmente voltar à mesa de negociações com o governo. Se isso acontecer, não haverá o risco de a liderança de Seguro ser posta em causa internamente?
Sinceramente não creio que isso aconteça. Ninguém o deseja. A começar por Pedro Passos Coelho, como ficou claro nos discursos da véspera de ouvirmos Cavaco Silva.
Seguro tinha conseguido uma pacificação no partido, fazendo aquela espécie de acordo com António Costa. Acha que depois das autárquicas a questão da liderança se pode reabrir se o PS não tiver uma vitória histórica?
Acho que o PS vai ter uma grande vitória, como é natural, nas próximas eleições autárquicas. Portanto a questão não se põe. O povo português, que na sua maioria odeia este governo, que continua moribundo, votará no PS porque recusou o acordo com a pior direita que tivemos até hoje. Agora o PCP não vai ter a votação com que sonhava porque o PS se declarou claramente à esquerda. Aliás, se o tivesse feito há mais tempo, já tinha chegado à maioria absoluta dos votos nas sondagens, como seria lógico. O PS sempre foi de esquerda e os social-democratas na linha de Sá Carneiro também.
O senhor doutor tem sido um grande apoiante de António José Seguro até agora. Seguro desiludiu-o neste processo?
Não posso negar que me desiludiu, principalmente com a maneira como ele me mandou dizer, por Almeida Santos, que estava magoado comigo por ter salvo alguns dos melhores militantes do PS. Tanto Manuel Alegre como eu evitámos que eles se demitissem antes de Seguro se pronunciar. Mas confesso-lhe que fiquei desiludido com o discurso brando com que anunciou o desacordo e deixou algumas portas abertas para uma nova discussão. Também fiquei desiludido com a entrevista que deu depois a Ana Lourenço, como já disse atrás, em que numa hora falou sobre ele e uma só vez no PS.
José Miguel Júdice disse que não tinha percebido o papel do Presidente da República nestas últimas semanas. O senhor doutor percebeu? O Presidente começa por retirar o tapete ao governo?
Também não gostei nada. Não só porque desmentiu o que antes tinha afirmado mas também porque, quanto a Portas, deu o dito por não dito. Além disso nunca falou do estado do país, nem da fome por que passam tantos portugueses, desempregados e que não têm comer para dar aos filhos. Uma tragédia, como se nada disso lhe interessasse. Só falou da troika e do pós-troika, quando na Europa em crise tudo está em aberto... E realmente, depois de se ter ocupado do pós-troika esqueceu o que dissera antes e não falou nem uma vez da situação portuguesa.
O senhor doutor resistiu sempre à ideia de eleições antecipadas. Pensa que desta vez o Presidente devia tê-las convocado?
É verdade. Mas agora, quando o actual governo está mais moribundo do que no passado, como se verá nos próximos dias, acho que as eleições seriam bem- -vindas, antes que o actual governo estrague mais o país, como vai notar-se nos próximos tempos. Portas, na sua vaidade, vai perceber, porque é inteligente, que ser vice-primeiro-ministro não representa nada e só lhe vai levantar problemas, e não só no seu partido. A troika vai recebê-lo mal e não lhe vai fazer concessões.
Mesmo com o PS no governo haveria sempre que negociar com a troika. Como é que um governo PS pode negociar com a troika sem pôr em causa a participação de Portugal no euro?
É verdade. Seria impossível fazê-lo. O PS sempre foi um partido de esquerda e é o que a maioria dos seus quadros e militantes quer que seja. Nunca nos seus melhores tempos houve dúvidas de que assim fosse. Mesmo quando esteve na luta com o PCP e ganhou a batalha, como se sabe. Não é possível por isso negociar com a troika antes que as coisas mudem na Europa, como penso que vai acontecer. Veja-se a atrapalhação em que está a senhora Merkel, quando a Alemanha começa a sentir dificuldades sérias...
Portugal devia ameaçar sair do euro? Qual é a possibilidade que Portugal tem de melhorar a sua situação quando temos as sociais-democracias europeias sem nenhuma força para mudar as coisas?
Nunca pensei que Portugal devesse sair do euro, nem da União Europeia. Foi através do euro e da nossa entrada na CEE, que foi anterior, que Portugal entrou num período de grande desenvolvimento em todos os sectores, nunca visto antes. É certo que as sociais-democracias a sério estão em declínio, bem como, ainda mais, os democratas-cristãos e os próprios socialistas. Quem tem estado no poder são os partidários dos mercados usurários, das troikas e do dinheiro acima de todos os valores. Têm o sentido de que o que conta é a austeridade e que a pobreza das pessoas e as próprias pessoas que se lixem, para usar o termo que hoje é muito usado. Os valores não contam. A ética e o humanismo, que permaneceram depois da Segunda Guerra Mundial hoje são motivo de riso dos tecnocratas, que enchem os bolsos e nada mais. Pois bem, isso vai ter de mudar ou a Europa cai no abismo e nada nos vale. Não creio que sejamos tão estúpidos que caiamos nesse abismo. Por isso tenhamos esperança. E acreditemos nos nossos valores. As troikas que se lixem, senhor Presidente da República e senhores primeiro-ministro e vice--primeiro-ministro.
O Dr. Mário Soares é um grande admirador deste novo papa. Como vê esta visita ao Brasil?
Como sabe não sou religioso, embora tenha sido Presidente, durante dois anos, da comissão da Liberdade Religiosa de todas as religiões presentes em Portugal. Não sou religioso, sou agnóstico, mas sempre tive muito respeito por todas as religiões. Quando aconteceu o 25 de Abril, manifestei logo ter respeito pela Igreja Católica Portuguesa, que foi colonialista no tempo de Salazar e de Marcelo Caetano, apesar de algumas excepções - os católicos progressistas foram algumas delas - e quando regressei a Lisboa e fui nomeado por Spínola ministro dos Estrangeiros, uma das minhas preocupações foi que não se repetissem as lutas da Primeira República. Os católicos desse tempo sabem bem como defendi a Igreja Católica, e os judeus, visto que fui eu quem pela primeira vez reconheceu o Estado de Israel e fui a Israel, bem como os muçulmanos, budistas, hindus e os bahá'is. Vem isto a propósito de Sua Santidade o Papa Francisco e da sua visita ao Brasil para encontrar sobretudo os jovens. Estou encantado com este Papa. Tenho por ele um grande respeito e uma enorme admiração. É a grande figura deste nosso século xxi, no plano não só religioso, mas político, social e sobretudo humano. E note--se que conheci pessoalmente muitos Papas, de Paulo VI a Bento XVI. Não tive ainda a oportunidade de conhecer o actual. Digo-o em função da sua excepcional humildade, da sua preocupação com os pobres, contra a chamada austeridade (que igualmente abomino) e a luta pela igualdade entre homens e mulheres, católicos e não católicos, crentes e não crentes e de todas as outras culturas e religiões. É um Papa de um humanismo excepcional, simples, amigo dos pobres e das crianças e que visita os presos e não tem medo de nada e de ninguém. É o maior homem deste século, a favor da paz e desejando mais igualdade. Só tem paralelo com Barack Obama, um grande presidente e um humanista como Sua Santidade. Ambos contra a nefasta austeridade e em favor das pessoas acima de tudo.
Dr. Soares, acha que a Igreja portuguesa e as autoridades têm uma posição em relação ao Papa igual à sua?
Acho que não. O silêncio da Igreja portuguesa, com raras excepções, preocupa-me, bem como a comunicação social, que tem dado muito pouca atenção - o futebol e as telenovelas estão sempre em primeiro lugar - aos portugueses que odeiam a troika e à malfadada austeridade. Quanto ao Senhor Presidente da República, que se diz católico, nunca o ouvi falar do Papa para exaltar a sua figura. E ao novo governo, incluindo Portas, que também se diz católico, também não. O novo governo só pensa em mais austeridade, como o Presidente no pós-troika. Sem uma palavra a favor do Papa, que não conta para eles. O Presidente, com o seu governo querido (até pelo menos 2015, como disse), não fala da situação do povo português, cada vez mais desesperada. E agora a Igreja também está um tanto silenciosa. E os fiéis também não contam? Não me parece, porque os fiéis vão necessariamente gostar deste Papa e o silêncio da Igreja está--lhes a custar muito. Como o do Presidente, que de católico a sério parece não ter nada. Acima de tudo para ele está o pós-troika e o dinheiro. Quanto às pessoas, nunca falou delas, como fez no Dia de Camões, a quem nem sequer se referiu. Para o Presidente também não conta, tal como o nosso Prémio Nobel, José Saramago. Pobre Presidente, desgraçado Portugal.

QUANDO SOARES FALA A DIREITA NEOLIBERAL TREME.
SEGURO NÃO ESTEVE BEM E VAI TER DE MUDAR DE AGULHA JÁ. OU APRESENTA A ALTERNATIVA OU CONVOCA UM CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO DE CLARIFICAÇÃO.
PARA ONDE QUER IR O PS?

2 comentários:

R. da Cunha disse...

Pois é, para onde quer ir o PS.
Entrevista lúcida.

Prata do Povo disse...

Ameaçar, que pergunta estulta, mas os Portugueses lá é um povo de má-fé? Portugual deve sair do euro por muitas razões mas nunca como ameaça. Anda por ai uma esquerda muito aldrabona o que é mesmo triste. E se o PS engedrar nisso não ficará bem na fotografia, pois a sociedade cívil Portuguesa está um bocadinho farta demais de aldrabões na Política e nos grandes negócios do país?