terça-feira, 8 de outubro de 2013

MÁRIO SOARES

Um triste 5 de Outubro

por MÁRIO SOARESHoje


1 Deixou, com o atual Governo, de ser feriado. Pudera, este Governo não é republicano, pois exclui os valores republicanos tanto quanto pode e não dialoga com o povo. Ora, sem o povo não há República e muito menos quando se celebra o aniversário de janela fechada para não se ouvirem as vaias. Mas ouviram-se. E de que maneira. Porque a polícia, que também é povo, infelizmente é treinada para espancar quem os chefes mandam e, assim, grita e bate em quem protestar. De qualquer modo, as vaias dirigidas ao Presidente da República e ao primeiro-ministro ouviram-se bem mesmo com a janela fechada na sala do município. E os espancamentos policiais - e a prisão de um inocente que foi libertado a seguir - multiplicaram o barulho e ouviu--se bem. Todo o País soube o que se passou. Seria melhor a janela não estar fechada... Mas a verdade é que nem se dignou a ver e a inaugurar a exposição sobre Raul Rego.
O discurso do Presidente da República foi curto e com pouco sentido e interesse. Parecia ser republicano e de esquerda. O que nunca foi. Falou de ética, em abstrato, da escola pública (que está a ser destruída), mas teve logo o cuidado de dizer - a propósito do que se passa com o ministro dos Negócios Estrangeiros (para o qual o líder do PS, e bem, pediu a demissão) - que um ministro não depende do Presidente. E o primeiro-ministro que o Presidente protege e escolheu não pode demitir o ministro por pressão do Presidente? Ou não quer, apesar de ser, como se sabe, solidário, protetor fiel do primeiro--ministro e do ministro dos Negócios Estrangeiros no tempo em que ambos estiveram ligados ao BPN? Que sentido faz então falar de ética? Não se coibiu de elogiar a senhora procuradora-geral da República, que não teve papas na língua ao responder a propósito de Angola ao ministro dos Negócios Estrangeiros, deixando-o muito mal.
Ao contrário, o discurso do presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, foi excelente, de bom senso e de oportunidade. Vale a pena relê-lo. Este aniversário do 5 de Outubro lembrou-me os ominosos tempos de Salazar, em que por dar vivas à República fui duas vezes preso, uma das quais quando, junto ao monumento a António José de Almeida, grande presidente da I República, a PIDE lançou gás lacrimogéneo sobre o general Delgado, os professores Jaime Cortesão, António Sérgio, Mário de Azevedo Gomes e, modestamente, eu próprio.
Agora ainda não houve gás lacrimogéneo. É verdade. Mas a hipocrisia do Presidente da República e do Governo de que o Presidente é solidário e protetor, como se tem visto, é seguramente maior. Não há PIDE, é verdade. Mas a polícia vai teimando em bater em quem protesta e qualquer dia - como avisou Durão Barroso - "temos o caldo entornado"...
Em conclusão. Enquanto o Governo está completamente paralisado e ninguém sabe o que se vai passar nos próximos dias, que Orçamento vamos apresentar (silêncio!), como vai reagir o Tribunal Constitucional - esperemos que bem - e, em concreto, quais as exigências da troika e dos usurários que a comandam?

PARTE DE UM ARTIGO NO DIARIO DE NOTICIAS QUE DEVE SER LIDO.

1 comentário:

R. da Cunha disse...

Não será mais higiénico e salutar acabar com os discursos, quase sempre balofos, do 5 de Outubro em salas fechadas ao povoléu? Uma pura perda de tempo ouvir o senhor PR papagueando umas frases que alguém lhe escrevinhou.