Os costumes e as maneiras mudam. E a tendência de cada época é para, simultaneamente, de si se vangloriar e considerar-se mais progressiva que as anteriores, e, por outro lado, lamuriar-se da perdição dos costumes dos seus jovens. Essas queixas já as encontramos no Antigo Egipto: cada época ao mesmo tempo se ufana de progresso e se pune simbolicamente como a mais degradada, ou melhor, em vias da maior degradação.Tal não significa que todas as épocas sejam igualmente progressivas ou decadentes. Quem viveu ainda o regime passado, se se detiver um pouquinho, verá um manancial de diferenças. Por muito progressivos que sejamos, são as maneiras que bebemos (ou não) com o leite e o chá maternos que nos hão-se seguir pela vida fora. Ora, em tempos em que as mães e as avós cada vez têm menos tempo para os filhos e netos, presume-se que o autodidactismo de educação não tem lá surtido grande efeito.Muitos não são já sensíveis a este tema. É uma espécie de surdez. É difícil fazer entender a um surdo as subtilezas da afinação de um violino. E as boas maneiras são subtilezas. Subtilezas socialmente difundidas, e que muito facilita(va)m a convivência. A tendência do nosso tempo é, sem dúvida, para a informalidade. Mas mesmo esta tem que ter por referência algum formalismo. Há, como se sabe, maneiras quase indiferentes (dizer “Bom dia” poderia ser substituído por “Olá, como vai?”, e é-o...), mas há um embotamento da alma que começa com a falta de maneiras e acaba no crime. Em ambos os casos se está perante uma indiferença ao valor de cada pessoa. E uma afirmação excessiva da vontade autista, contra tudo e contra todos. Ora o autismo está a invadir-nos. Já não são só os jovens que andam, quais marcianos, de auscultadores pelas ruas e olhos em máquinas de teclas, mesmo quando atravessam as ruas: para desespero dos automobilistas, alguns deles com auscultadores também.Já falamos muito de teoria das maneiras. Vou concentrar-me em coisas recentes, como ilustração. Telefono por um táxi. Face ao estranho hábito de não virem à porta, como era normal, peço-o explicitamente. O telefonista replica, insolente: “- Quer carrinho à porta, pela sombrinha?” “- Não”. Replico friamente. “Acaba de perder uma corrida para o aeroporto”. Nos aviões, ainda há sentido de trato social e simpatia. É uma grande excepção na nossa sociedade. Vou na verdade de comboio. Um trajecto com transbordo tem dois preços: conforme se peçam os bilhetes separados, ou apenas se indique o destino final. Mas tal não tem a ver com as maneiras dos funcionários, antes com o tratamento da empresa ao público. Uma vez no comboio, em 1.ª classe ouvem-se, por vezes, aquelas vozes de plástico, irritantes mesmo quando querem ser simpáticas: assumem a musicalidade de um disco riscado, sem vida, sem entoação humana. Um computador faria melhor. Este tipo de voz impera em avisos de aeroportos, centros comerciais, e em serviços de atendimento telefónico. Também aqui a falta de amabilidade não é culpa dos que falam.Passando de um comboio de alta velocidade para um mais lento e provinciano, muda-se de planeta. Da moça de voz sofisticadamente plastificada que oferece até bebidas gratuitas, se passa ao revisor de bigode farfalhudo que, sem querer ser mal-educado, contudo não deixa de sobressaltar sensibilidades mais atentas: “Vocês para onde vão?”. Se o dissesse a um grupo de globe-trotters, entendia-se. Não para um casal de idosos. Sei que há sensibilidades diferentes ao você. “Vc é estrebaria!”, dizia uma minha Avó. Não falo da conotação no Brasil. As maneiras são contextuais.Num restaurante, depois de espera de anos-luz, vem comida requentada e queimada. Perante a reclamação, o empregado bate a mão no ombro do reclamante, como se fossem camaradas de escola ou tropa.Dir-me-ão: você é pobre, não se dá ao respeito, andando de comboio e frequentando restaurantes baratos. Respondo: fui em 1.ª classe até onde pude, táxi não tem classes, mas não é um autocarro suburbano, e o restaurante era esplanada de “porta aberta” numa estância balnear frequentada outrora pela aristocracia, e hoje até por antigos ministros... Terá que ostentar todo o serviço meia dúzia de estrelas?Não chega gravata, é preciso guarda-costas?Será que a educação apenas se compra a alto preço? Não creio: tenho sido atendido como um rei no mais humilde boteco do Brasil. Educação não tem preço.Ia esquecendo: no meu trecho de 1.ª classe de comboio, um empresário endinheirado gritava em dois telemóveis em altos brados, polvinhando o discurso de vernáculos palavrões.
pfc in "O Primeiro de Janeiro" de 06-09-2007
2 comentários:
Mas então não é verdade que até o Luiz Vaz já tinha afirmado, e aos anos que isso já vai!, que se mudam as vontades à medida que se mudam os tempos? Diziam (dizem?) que "você, na minha terra é besta"; mas então você não deriva do Vossa Mercê?
E, já agora, como é que sabe que o senhor que falava em altos brados em dois telemóveis (ao mesmo tempo?), era empresário e era endinheirado? Ou tinha mesmo aquele ar de pato-bravo tão típico que não enganava? E que é isso de vernáculos palavrões? Os seus ouvidos são sensíveis às "novas" linguagens de algum empresariado empreendedor (não sei se não há aqui uma redundância)?
Uma última observação: já ninguém (fêmea humana) amamenta os seus rebentos (por razões várias e todas respeitáveis, como sabemos) e o chá, nem o das 5 de la tarde. Agora há bebidas (e não só) muito mais estimulantes!
PS - Hoje deu-me para aqu. São resquícios da silly season, será?
Obrigado pelas divertidas e sábias observações, como habitualmente.
Tinha ar de pato bravo, sim senhor, e mais que ar, ares. Falava em fornecedores e compras e vendas e dava ordens com voz de chicote. E dava-se importâncias e adorava estar a fazer aquele espectáculo, para que vissem que mandava e movimentava muito dinheiro...
Q.E.D.
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