sexta-feira, 20 de junho de 2008

EXPRESSÕES CORRENTES

HAVER DE TUDO COMO NA BOTICA

Antes de mais, «botica» provém do grego apoteca (grafia aportuguesada), que significa «despensa, depósito, arrecadação, armazém», mas pela via francesa de 'boutique', pura e simplesmente «loja de vendas». Nesta acepção se encontra um documento de 1460: «...os freires do conuento da mjnha villa de Tomar ajam a Renda da mjnhas buticas da feira da dicta villa...» «Apoteca» daria ainda à língua portuguesa «bodega e «adega» (a primeira, inicialmente, com significado de «tasca», «taberna», mas hoje reduzida a «coisa suja, sem qualidade, porca, sem préstimo»). Da ideia de loja com sortimento variado passou a sinónimo de farmácia, estabelecimento onde se vendia toda a espécie de drogas e mezinhas. Existia nas farmácias um livrinho a que chamavam Qui-pro-quo (uma coisa por outra). Não se atrapalhavam os boticários se não tinham o medicamento receitado. Iam ao livrinho e encontravam o substituto. E, se o não encontrassem, inventavam um. Sair da botica sem ser aviado é que o cliente não saía. O qui pro quo (escrita correcta) vinha, aliás, dos físicos que, nos séculos XII e XIII, nas suas receitas, inscreviam sugestões de substituições dos remédios numa coluna encimada pela expressão latina. Os farmacêuticos nem sempre primavam pela honestidade e tinham liberdade de trocar os remédios. Esta «liberdade de trocas» dá-nos a fonte da frase portuguesa.

In Dicionário de Expresões Correntes, de Orlando Neves

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