HAVER DE TUDO COMO NA BOTICA
Antes de mais, «botica» provém do grego apoteca (grafia aportuguesada), que significa «despensa, depósito, arrecadação, armazém», mas pela via francesa de 'boutique', pura e simplesmente «loja de vendas». Nesta acepção se encontra um documento de 1460: «...os freires do conuento da mjnha villa de Tomar ajam a Renda da mjnhas buticas da feira da dicta villa...» «Apoteca» daria ainda à língua portuguesa «bodega e «adega» (a primeira, inicialmente, com significado de «tasca», «taberna», mas hoje reduzida a «coisa suja, sem qualidade, porca, sem préstimo»). Da ideia de loja com sortimento variado passou a sinónimo de farmácia, estabelecimento onde se vendia toda a espécie de drogas e mezinhas. Existia nas farmácias um livrinho a que chamavam Qui-pro-quo (uma coisa por outra). Não se atrapalhavam os boticários se não tinham o medicamento receitado. Iam ao livrinho e encontravam o substituto. E, se o não encontrassem, inventavam um. Sair da botica sem ser aviado é que o cliente não saía. O qui pro quo (escrita correcta) vinha, aliás, dos físicos que, nos séculos XII e XIII, nas suas receitas, inscreviam sugestões de substituições dos remédios numa coluna encimada pela expressão latina. Os farmacêuticos nem sempre primavam pela honestidade e tinham liberdade de trocar os remédios. Esta «liberdade de trocas» dá-nos a fonte da frase portuguesa.
In Dicionário de Expresões Correntes, de Orlando Neves
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