terça-feira, 24 de junho de 2008

Feira do Livro

Encerrou em 10.6 a Feira do Livro do Porto. É um evento mágico, todos os anos, onde se celebram esses insubstituíveis mensageiros de saber e entretenimento que são os livros. Onde os livreiros fazem enormes esforços para marcar presença (desmultiplicando-se, por vezes com sacrifício pessoal que o público desconhece).
A Feira do Livro, no Palácio de Cristal, acaba por ser sucedâneo do passeio na antiga feira popular (mas burguesa, no bom sentido) da Avenida das Tílias. Aí se passeiam as famílias, se pode conversar (o café literário central, embora sem café, pode ser tertúlia informal), e encontrar amigos que perdemos na azáfama de todo o ano. A vida social e cultural do Porto assim anda: com o isolarem-se muito as pessoas, trituradas no quotidiano delirante de excesso de trabalho. E como em terra de escassos recursos os intelectuais são sobretudo professores, e os professores andam sem tempinho para espirrar, lá se vai a vida cultural...
Em licença sabática, consegui ir umas 4 vezes à Feira do Livro, mas sem demorar muito.
Em 3 ocasiões fui por causa de sessões de autógrafos com debates. E em 2 participei destes. Primeiro, pelo excelente livro do Prof. Doutor Manuel Damásio, “O Caso” Universidade Livre e a Evolução do Ensino Superior Privado após o 25 de Abril, das Edições universitárias Lusófonas. Depois, por livro próprio: Pensamento Jurídico Luso-Brasileiro, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
Na primeira mesa redonda, falaram os Reitores da Universidade Lusófona do Porto, Prof. Doutor Fernando dos Santos Neves e da Universidade Fernando Pessoa, Prof. Doutor Salvato Trigo, e o Catedrático e Académico de História, Prof. Doutor Baquero Moreno. O autor, no seu estilo sereno e agudo, dupla qualidade muito rara entre nós, fecharia a sessão, sublinhando, nomeadamente, a importância simbólica da Universidade Livre, e relembrando algumas das vicissitudes a que haveria de soçobrar. Seria ousadia tentar resumir as belas intervenções. Pela minha parte, limitei-me a lembrar algo da minha experiência de assistente estagiário nessa universidade, recordando que da natureza das universidades fazem parte alguns elementos que não são facilmente fungíveis. Havendo necessariamente coisas susceptíveis de serem avaliadas como boas ou más em todos os modelos.
Na segunda mesa redonda, falaram os universitários Prof. Doutor João Relvão Caetano (da Univ. Aberta) e Dr. António Lemos Soares (da Univ. do Minho), e o ensaísta Paulo Samuel, tendo o debate sido enriquecido com questões do Prof. Doutor Afonso Rocha, da Universidade Católica.
O que das duas mesas redondas me pôs a pensar foi a entusiasmante pluralidade de pontos de vista e estilos de grandes universitários e intelectuais. Sem combinarem nada entre si, estes excelentes nomes da nossa cultura discorreram livremente sobre dois livros e as suas circunstâncias, não debitando os respectivos índices, nem mal cerzindo citações. Personalidades muito diferentes, com ideias também diversas, como cavalheiros dialogaram.
Esta é a universidade de diversidade que falta, por vezes, aos claustros hierarquizados e burocratizados. Em que mais importe a vaidade e a luta pelo poder que o verdadeiro diálogo, que tem de ser sempre entre pares, e pares que se respeitem. Se um sentido útil poderia ter a expressão (um tanto demagógica) “universidade da vida”, aí estaria: a universidade criada nos espaços públicos de ágoras informais, em que, sem trabalharem para os curricula, sem medo das avaliações por pares, superiores, ou estudantes, em liberdade, os investigadores e professores se manifestam e criam cultura em estado puro, que é o seu estado livre.
A Feira do Livro do Porto promoveu inúmeros momentos destes.
Não sei para onde se mudará a feira nos próximos anos. Seja como for, não é importante. Levantar arraiais de um lado e estabelecer-se noutro sempre foi coisa de gentes livres e de saber, como os goliardos. Onde quer que vá, espero que a Feira do Livro do Porto continue este trabalho insubstituível de espaço aberto de cultura livre.
Enquanto ia ouvindo o que se ia desenvolvendo, nessas mesas redondas, não pude deixar de reparar nos passantes que se detinham, e sobretudo nos que se iam sentando. Acho que o que os ia prendendo era precisamente um certo tipo de espanto algo entusiasmado até. Espanto por gentes de cultura falarem de forma tão simples e tão directa. Não enredando confusões, mas indo aos assuntos.
É isso que falta na nossa cultura: liberdade e clareza.
pfc in "O Primeiro de Janeiro" de 19-06-2008

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