Escolher é difícil. Só os voluntaristas crêem que não. A escolha de alguém para um emprego, posto, ou honra tem muito que se lhe diga. Há quem possua “olho clínico” para essa selecção, e há os eternos ludibriados que, colocados não se sabe por que capricho da Providência em postos de poder, ou com fatias de poder de escolha, se obstinam em sempre cometer os mesmos erros, optando invariavelmente pelos incompetentes, que aliás os irão trair sem a mais leve relutância ou a mais ténue compaixão. A propósito de escolhas de pessoas, certamente o primeiro tópico que ocorre será Mateus, XXII, 14: multi autem sunt vocati pauci vero electi. “Muitos são os chamados; poucos os escolhidos”. Será assim na vida? Há uma mudança de concepções face a este fenómeno. Não sabemos quando começou a criar-se o paradigma hoje em franco recuo. Seria interessante indagá-lo, mas não é este o lugar. Limito-me aqui uma breve reflexão ontem/hoje.Ouviam-se, ainda há não muitas décadas, certas frases sintomáticas sobre a cooptação por alguns poderes: cooptação política, empresarial e académica. Todas com a sua aura de magia e poder.Exemplo dos exemplos é o de Oliveira Salazar. Com uma função socialmente irradiante, próxima da narrativa mítica primordial, e discurso legitimador de todas as cooptações. Salazar encontrar-se-ia pacatamente dando as suas lições de Finanças na Faculdade de Direito de Coimbra, “fazendo o seu dever”, “cumprindo o melhor que podia e sabia”, “sem aspirações de mando”. Miticamente, nada teria feito para ser “escolhido”, por chamamento. Hoje, não se poderá dizer que quem se faz eleger deputado seja alguém totalmente desprovido de ambições políticas. Pois para ele parece que não. Salazar é eleito deputado (dir-se-ia “casualmente”), mas, o que carrega ainda mais as tintas do seu desprendimento, por um lado, e, por outro, do seu antiparlamentarismo, é que vai a uma ou duas sessões da Assembleia e vem-se embora... parece que horrorizado.E este homem rigoroso, de contas, que fala com voz fina e não gosta das massas (e até parece fazer a contra-gosto a saudação fascista – diz-se) teria sido, contudo, o homem providencial.Mas para haver homem providencial “chamado” é preciso haver uma instância-Providência (embora aparentada com um “deus ocioso”) que, omnisciente, esteja de atalaia, e pesque à linha os escolhidos. O mito do chamamento de Salazar impregnou o nosso imaginário. Lembro-me em especial de uma pessoa próxima que então galgou os degraus do sucesso. Nesse tempo, era um acontecimento, uma honra excepcional: foi “convidado para assistente numa Universidade”. Nesse tempo, todos os assistentes eram recrutados por convite. Um dia poderemos discutir esse sistema, e compará-lo com o que vigora (e relembrar Max Weber e o seu actualíssimo Wissenschaft als Beruf). Seja como for, toda a sua família e amigos devem ter ficado reconfortados com a bela ordem do Mundo. Há um sentimento de reconciliação com a Justiça quando assistimos a uma boa escolha. E quando há uma boa escolha (uma escolha de alguém competente, íntegro, etc.) ela irradia a satisfação íntima profunda que sentimos com a realização do valor Justiça. Mais ainda: com uma generalizada sensação de que há muitas boas escolhas por parte de muitos seleccionadores (discretos, e, por isso mesmo, com maior aura de sabedoria e omnisciência), a sociedade não só repousa e acredita nessa ordem, como valida mesmo menos boas escolhas, por arrastamento das boas, ou do mito das boas escolhas. Presunção desculpável. Os governantes de hoje não são seleccionados por esse Big brother invisível que escolheria quem merecesse... Nem eles, nem ninguém. Os avaliadores têm rosto (afora as avaliações dos professores pelos alunos), e o voto é a regra. Mesmo na Universidade, concursos com garantias, propiciam plurais candidaturas, ao contrário da cooptação pura e simples, normalmente perpetuadora de poderes. Pena é que ainda haja muita endogamia. Mas esta nova situação geral fez-nos perder o Pai, atento e premiador. Sem marketing pessoal agressivo, e sem acólitos (ou empresas) para o promover, podem-se hoje fazer maravilhas que ninguém dará por nada. Repugna ver como se vendem publicamente pseudo-glórias e pseudo-genialidades. Tem de haver uma alternativa ao despudor de hoje e à arcana praxis de ontem, em que se forjavam génios nos conventículos. Entre a ribalta do espectáculo e a obscuridade da conspiração há valores perdidos. Vale de Lobos é tentação dos melhores.
pfc in "O Primeiro de Janeiro" de 26-06-2008
3 comentários:
Não deve vir nos dicionários, mas cooptar "cheira-me" a perpetuar a espécie.
A selecção depende do(s) seleccionar(es): e quem o(s) nomeou, quem lhe(s) deu o poder para tal? E tal poder como e por quem é escrutinado? (O Madaíl escolheu o Scolari, que seleccionou o pior guarda-redes do Euro/2008).
Eu, que estou (aparentemente) muito quietinho no meu canto, vou, sorrateiramente, dando uns sinais (pode ser de fumo índio) a alguns "poderes difusos" (como agências várias), a dizer que existo e que , modéstia à parte, até sou bom, mas não estou nada interessado nos poderes mundanos (que só trazem chatices e exposição pública, a que até sou alérgico!), mas que poderia aceitar, muito forçadamente e a contra-gosto, dar o meu modesto contributo para bem do Povo, do País, da Cultura, o diabo-a-quatro). E, um dia, quem sabe?, lá terei que aceitar tão honroso convite e tudo farei para levar a bom porto a pesada missão que me foi confiada, sem querer saber das eventuais prebendas que daí poderão advir. Sou homem modesto, de origens modestas, de princípios frugais. De qualquer modo, muito obrigado!
Bem, depois..., a História dá-nos exemplos vários destes especimes (não tão raros como isso), e sabe-se como a estória termina, salvo as excepções que possa haver.
Adenda:
Também há os "espertos", que exibem, sem falsas modéstias, as suas "qualidades", que se mostram nos locais adequados, na companhia de caras larocas a enfeitar o seu bom gosto, com um discurso de voz bem colocada, gestos largos, algo blasée, e etc. E há sempre alguém que "compra" o produto. Exemplos? Não dou, se não fecham-me o estaminé.
Gostei do texto e dos comentários. É a vida!
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