terça-feira, 8 de outubro de 2013

Tiago Freire          

 

 

Machete, o preço da ambição

08/10/13 00:21 | Tiago Freire 
      

   





 

 

 

Peço desde já desculpa ao leitor por voltar ao assunto Machete. No entanto, se o primeiro-ministro escolhe ignorar o mamute na sala e ainda não demitiu o ministro dos Negócios Estrangeiros, também eu posso fingir que nada se passou e voltarao tema.
A RTP passa, à hora do almoço, uma novela angolana chamada "Windeck - o Preço da Ambição". Nessa novela há umas personagens de roupas extravagantes, o que aparentemente é normal na alta sociedade angolana que o programa pretende retratar. Mas, tal como aquelas roupas parecem estranhas se forem tiradas do contexto, também Machete decidiu que, em Angola, vale tudo. Insistindo naquela convicção pré-globalização de que o que é dito em Angola - ou seja onde for - não chega cá, decidiu metodicamente dinamitar várias coisas. A saber, por ordem de importância : a credibilidade do estado de Direito em Portugal; a credibilidade do Ministério Público e dos seus líderes; a credibilidade do Governo português; e a sua própria credibilidade.
E fê-lo com a candura das crianças, como se genuinamente acreditasse que "what happens in Angola, stays in Angola". Machete foi apanhado na sua própria novela Windeck, que surge na sequência da outra série, desta feita policial, chamada SLN/BPN.
Diz que tem garantias das autoridades judiciárias (independentes por lei da República, relembre-se) que não se passa nada de grave nas investigações a cidadãos angolanos de renome, e que tal lhe foi garantido por essas autoridades; e, delícia das delícias, pede humildemente desculpa pelo incómodo de termos instituições independentes a funcionar e a fazer o seu trabalho.
Quanto à sua cultura democrática, estamos conversados. Pode uma pessoa que pensa assim continuar a ser ministro? Aparentemente sim.
Já aqui escrevi que o ministro dos Negócios Estrangeiros faz parte de uma certa elite portuguesa que é elite porque sim. Porque acumula cargo atrás de cargo, com um pé no privado e outro no público, com a inevitável passagem por bancos, fundações e grandes escritórios de advogados. E que, quando colocados na grande montra que é a vida política portuguesa de primeira linha, não conseguem evitar fazer asneira. Faz pensar quantas asneiras terá feito longe do escrutínio público.
E, apesar disso, ele mantém-se.
Com isto, conseguiu embaraçar de morte o Executivo português, a quem talvez desse jeito passar esta mensagem em privado, mas nunca em público. Mais, deixou o Governo - que, julgo, tem tarefas mais importantes entre mãos, nomeadamente recuperar a soberania financeira do país - à mercê da habitual verborreia do Jornal de Angola contra o "colonialismo" português. Este silêncio encavacado do poder político português, conjugado com as palavras de Machete, são a "machetada" final na credibilidade internacional de Portugal.
Com um elemento sádico: se não demite Machete, Passos faz o impossível e o inadmissível; se o demite, passa para Angola a imagem de que está do lado dos "colonialistas". Parece-me evidente o que tem de fazer.
O Governo de Passos Coelho assentou a sua estratégia inicial numa espécie de virgindade política imaculada, por contraponto ao "maldoso" Sócrates. Essa imagem, que enganou alguns, foi sendo desmontada pelo fenomenal Relvas e suas tropelias, para ser agora enterrada de vez. Cada dia que passa com Machete no cargo é mais um dia em que o líder do Governo abdicou de o ser.

O TEMA MACHETE VAI TAPANDO OS BURACOS DO GOVERNO E DA DIREITA.
NÃO SE FALA DE ELEIÇÕES, NÃO SE FALA DE GRAVE CRISE, NÃO SE FALA DO ROUBO DOS CORTES, NÃO SE FALA DAS TROPELIAS DE PORTAS, NÃO SE FALA DE POLÍTICA SÉRIA.

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