segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) demonstrou no passado fim-de-semana que não tem um projecto de governo nem uma ideia para a saída da crise e que não é isso o que o preocupa. Realizou em Madrid uma conferência política “que culminou quase nove meses de trabalho”. Para quê? “A primeira coisa que o PSOE tem a fazer é pensar no que quer dizer aos espanhóis”, resumiu o secretário-geral, Alfredo Pérez Rubalcaba. No fim, proclamou: “O PSOE está de volta.” Mas pouco ou nada disse aos espanhóis — o que é complicado numa era de descrédito da política.
A conferência foi uma “missa” para consumo interno. Todas as questões espinhosas que dividem o partido — da eleição de novos dirigentes ao nacionalismo catalão, da crise do Estado-providência à política europeia — foram afastadas da ordem de trabalhos ou remetidas para declarações inócuas. As conclusões foram aprovadas pelo score búlgaro de 98%. Muitos militantes felicitaram-se pela “viragem à esquerda”, mas os analistas foram cruéis.
Javier Casqueiro, redactor-chefe da secção de Política do El País, escreveu que Rubalcaba “chegou em coma e saiu para as urgências”. Resumiu assim a conferência: “O PSOE está de volta. Quer dizer que durante um tempo foi embora, não estava. Perdeu a conexão com a sociedade, ou melhor, com as classes desfavorecidas que eles consideram o sector-base do seu eleitorado.” O PSOE sofreu “uma sangria de um, dois, três ou quatro milhões de eleitores”, facto que atribui às medidas de austeridade do Governo de Rodriguez Zapatero, em 2010. “Reconhecem o erro e prometem que tal não voltará a acontecer.”
Outros sublinharam a inutilidade de elaborar um catálogo de promessas antes de eleger uma nova liderança. “Primeiro as ideias, depois as pessoas”, disse Rubalcaba. O sociólogo Enrique Gil Calvo respondeu: “O senso comum determina que primeiro se eleja um líder que, depois, tratará de fixar e estabelecer uma agenda política que possa assumir como sua” perante os cidadãos. É uma questão de credibilidade.
Mas não era esta a preocupação dos dirigentes: era simular a coesão e reafirmar que “o PSOE continua a ser socialista” e “regressa às suas raízes”. Foi, escreveu um jornalista, “uma injecção de ânimo aos seus 200 mil militantes”.
“Carta ao Pai Natal”
As conclusões da conferência alteram algumas normas do funcionamento do partido, apresentam um projecto de reforma fiscal e uma série de medidas de incremento da laicidade e da igualdade.
A resposta à crise económica resume-se a dois tópicos: uma redução dos impostos para os desfavorecidos e o seu aumento “para os que têm mais rendimentos, rendas e património”; e, por outro lado, “o resgate do Estado social”, aumentando as pensões mínimas, a protecção dos desempregados ou as bolsas de estudo. Prometem “aumentar a receita fiscal sem subir impostos”. Será revogada a reforma laboral do Governo Rajoy.
No plano da laicidade, “o PSOE denunciará os acordos com o Vaticano”, anulando os privilégios fiscais da Igreja Católica e fortalecendo a “escola pública laica”. No plano da igualdade, alterará a lei eleitoral, garantindo às mulheres uma quota de 50%. E propõe-se rever a Constituição, nela integrando os direitos sociais, “um fundo de garantia do Estado-providência”, o direito de voto dos imigrantes nas eleições municipais e o casamento entre homossexuais.
“Que os projectos políticos se pareçam com uma carta ao Pai Natal é um defeito generalizado dos partidos espanhóis”, escreveu um dos raros militantes que votaram contra.
“É ingénuo pensar que estas medidas se possam encaixar no programa de qualquer Governo. São planos de vacas gordas num tempo de vacas magras”, escreveu o politólogo Víctor Lapuente Giné. “Não podemos carregar num botão e conseguir tudo isso de uma tacada e num contexto recessivo.” Cada medida, em si mesma, pode ser exequível, mas juntas “são irrealizáveis”. Mais sensato do que a soma de promessas seria apresentar um texto definindo um rumo, “uma bússola — instrumento mais prático nas águas agitadas de um mundo globalizado”.
Num debate sobre a globalização — em que participou António José Seguro — Felipe González foi mais substancial e explicou que “a esquerda deve procurar saber como crescer, como ser eficaz economicamente numa economia aberta e competitiva, sem adoptar um modelo de salários baixos e de redução dos padrões sociais”.
A conferência foi marcada por um clima de “frente popular”. O PSOE sente-se socialmente isolado e está a ser acossado à esquerda — pela Esquerda Unida (IU), que sobe nas sondagens e que, por sua vez, está num processo de radicalização que ameaça os próprios comunistas que a dominam.
Em declarações à imprensa, González advertiu contra esta deriva. E José Bono, um dos veteranos barões do partido, avisou que “o PSOE não é um partido comunista” e que, nas questões de Estado e nos “momentos de dificuldade”, o seu interlocutor deve ser o PP e não a IU. De resto, a radicalização do PSOE tende a favorecer eleitoralmente o PP.
A negação da realidade
Zapatero foi o ex-líder mais saudado, mas a conferência foi em parte a sua condenação. A crise espanhola é distinta das outras e não foi prevista pelos “mercados”, que saudavam o “milagre espanhol”. Quando a crise financeira caiu em cima da “bolha imobiliária” espanhola — que vem da era Aznar —, foi a catástrofe.
Zapatero começou por negar a crise. Tentou depois uma resposta de tipo keynesiano. Rendeu-se à realidade em Maio de 2010, fazendo uma viragem de 180 graus e lançando um duro programa de austeridade. Esta decisão passou a ser a má consciência do PSOE.
Escreve um seu antigo colaborador: “Se Zapatero, em Maio de 2010, se tivesse negado aos duros ajustamentos exigidos pela economia espanhola para evitar o colapso e se, por coerência ideológica, se tivesse demitido, ter-se-ia tornado num ícone para a esquerda, mas teria condenado uma geração de espanhóis a um futuro muito mais sombrio.”
Quando a crise financeira se espalhou em 2008, uma parte da esquerda pensou ter chegado o seu momento. Mas depressa percebeu que a crise atacava sobretudo a social-democracia, deixando-a sem margem de manobra e sem uma resposta própria. Como “regular o mercado” ou como reformar o Estado-providência para o salvar? É o debate que se começa a fazer nas sociais-democracias de outras paragens da Europa — da Holanda à Itália, da Suécia à da Grã-Bretanha.
É importante distinguir o plano dos factos do plano dos valores. Observa o politólogo italiano Luca Ricolfi: “Quando os factos entram em choque com a ideologia, o reflexo mecânico da esquerda não é corrigir ou adaptar a ideologia, mas corrigir a realidade, negando os factos.”
É o que se passa com o PSOE.

A SOCIAL DEMOCRACIA COMEÇA A ACORDAR DO SONO PROFUNDO EM QUE SE DEIXOU CAIR.
ANDARAM DE BRAÇO DADO COM O NEOLIBERALISMO DISFARÇADO E AS CONSEQUÊNCIAS SÃO DESASTROSAS.
AINDA ESTAMOS A TEMPO DE DIZER NÃO A ESTA ECONOMIA SELVAGEM.

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