quinta-feira, 14 de junho de 2007

Decálogo Novo

Chegam-me pela Net os Novos dez mandamentos. Julguei que seria algum estudo sobre o interessante livro de Fernando Savater, Os Dez Mandamentos para o Século XXI, em que o filósofo espanhol questiona directamente Jeová, numa coloquialidade perturbadora para os mais ortodoxos. Mas não, trata-se mesmo de um novo decálogo.Passo a citar, com a devida vénia, e esta maior, porque se trata de Mandamentos:“1. Amarás o universo, a natureza e a vida sobre todas as coisas. (Francisco de Assis).2. Amarás a ti mesmo com o esquecimento e o mundo com a lembrança. (Buda, Hannah Arendt)3. Darás sempre início ao novo, pois os humanos, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para recomeçar. (Agostinho de Hipona, Hannah Arendt)4. Não forjarás ideais contrários à vida e à alegria de viver. (Séneca, Lucrécio, Nietzsche)5. Não te torturarás com o passado e com o futuro para não sofreres em vão. (Buda, Séneca, Nietzsche)6. Só desejarás a justa medida das riquezas: primeiro, o necessário; segundo, o suficiente. (Séneca)7. Não dirás que tua vida é ou foi frustrada; vida alguma jamais se frustra. (Séneca, Nietzsche, Henry James)8. Não obedecerás sem pensar no que te leva a obedecer. (Hannah Arendt, Winnicott)9. Não dirás que tua verdade é a única, e sim aquela em que mais acreditas. (William James)10. Não eternizarás esse decálogo. (todas as vítimas da intolerância)”.Não posso assegurar que a proveniência dos pensamentos feitos Mandamentos seja sempre correcta. Poderá haver uma ou outra falha de atribuição. Já vi poemas de pé quebrado pinga-amores em português do Brasil atribuídos a Shakespeare, e até máximas de auto-ajuda assinadas com nomes de pintor célebre. Mas isso não importa. O pensamento em si é que é importante.Tenho muitas dúvidas de que o velho Decálogo de Moisés esteja já totalmente ultrapassado. Como se pode esquecer o Não matarás, o não roubarás? Não vou tão longe como o jurista Alvaro D’Ors – filho do filósofo do barroco, Eugenio D’Ors – que chegaria a afirmar que este Decálogo seria uma espécie de resumo dos deveres de Direito natural. Mas, independentemente dessa polémica, sem dúvida muito técnica, o carácter concreto dos X Mandamentos revela-se ainda de alguma utilidade num Mundo que tarda a ver as coisas simultaneamente com outra leveza e com outra profundidade e responsabilidade. Seria de pensar que, no séc. XXI, o Homem já não precisasse de cadeias de ferro tão apertadas. Mas, infelizmente, revela-se que o verniz de educação e de civilização estalam à primeira contrariedade forte. Nem é preciso vir uma Guerra. Uma catástrofe, um isolamento, uma irritação, e começa-se logo a clamar que precisa o bicho-homem de cenoura e chicote. Chega a ser desalentador. Precisamente por isso é que temos de continuar a rolar a triste pedra da nossa condição humana até ao cume da montanha da nossa Humanidade sonhada... ou “natureza humana”.Estes mandamentos têm a vantagem de não perturbar muito cada um com interditos explícitos. O problema é se somos capazes de ter a inteligência e a sensibilidade suficientes para advertir que, por detrás da boa intenção e da souplesse do mandamento novo, estão também, necessariamente, proibições. Seremos capazes de nos limitar a nós mesmos não com sentido escrupuloso farisaico e policial, mas com uma consciência esclarecida, não supersticiosa, aberta, ao mesmo tempo eticamente exigente? Amarás… Seremos capazes de ver que amar é muito mais complicado e custoso que simplesmente não fazer isto ou não fazer aquilo, pelo simples medo do fogo inferno? Característica deste decálogo novo é o seu assumido não dogmatismo. Nem se pode dizer que a própria verdade é a única, nem sequer um tal decálogo poderá ser eternizado. Questão interessante. Ainda muitos milhões de indivíduos vivem imersos em pseudo-verdades, que são as suas. Mesmo gente instruída e pseudo-culta acorda de manhã, vê-se ao espelho e sorri por ter tanta certeza nas suas verdades, na sua Verdade. E contudo, cá para nós, muitas dessas verdades, de massas e de pseudo-elites, não valem uma análise rigorosa de dois minutos. Como Gustave le Bon estudou, em La vie des Vérités, o Homem precisa de crenças, que transmuta em verdades. E essa necessidade é força.Este Decálogo é elitista. Serve a quem tenha já alguma auto-contenção. É um possível guia para o futuro. Infelizmente, hoje, apesar de todas as críticas (e divertidas) de Savater aos Mandamentos do Sinai, ainda há muito quem precise da maioria deles. É a triste constatação. Basta ler o jornal.
pfc
in "O Primeiro de Janeiro" de 14-06-2007

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